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Kurt Helmut (Niterói, RJ, 27.jun.1957 –  Niterói, RJ, 18.out.2022) Divagação Confesso: Atravessei por baixo da passarela do momento e por um instante, fui atropelado pelo tempo. Braços, pernas, olhos, lábios, nariz e as orelhas, voaram para o outro lado da pista; enquanto o coração estava preso ao fio da razão. O socorro não chegou e ninguém a não ser eu mesmo, pôde tocar nos meus próprios destroços. Sei que estou morrendo mais uma vez, por um sentimento, onde a infinitude é um fato concreto.  
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João Guimarães Rosa (Cordisburgo, MG, 27.jun.1908 –  Rio de Janeiro, RJ, 19.nov.1967) Revolta Todos foram saindo, de mansinho, tão calados, que eu nem sei se fiquei mesmo só. Não trouxe mensagem e nem deram senha... Disseram-se que não iria perder nada, porque não há mais céu. E agora, que tenho medo, e estou cansado, mandam-me embora... mas não quero ir para mais longe, desterrado, porque a minha pátria é a minha memória. Não, não quero ser desterrado, que a minha pátria é a memória.  
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Iracema Macedo (Natal, RN, 27.jun) Canção da mulher que virou barco Transgrido tantas leis que já nem sinto Entro em um mar de águas-vivas que ardem, ardem, ardem mas nem doem parece que me alisam com seus pelos frágeis Cada vez me afoito mais e não encontro margens e não encontro porto só encontro tempestades onde atracar Nesse excesso de sal nesse mar escuro em que me perco me iluminas com o teu desejo me serves de farol quando anoiteço e me guias me guias me guias jorrando tua luz sobre meus seios  
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Claufe Rodrigues (Rio de Janeiro, RJ, 27.jun) Ode ao vento O vento que ara teus cabelos com frescas memórias é o mesmo que ainda ontem expulsou Eva do paraíso castigou as estepes russas com chuvas de granizo soprou vozes de encanto aos jovens sem juízo lambeu o sal dos corpos nas praias contemporâneas arrancou árvores na Amazônia, pontes na Pensilvânia e telhados nas Antilhas construiu paisagens férteis com as areias dos desertos arrastou navios de piche por destinos incertos estalou na Ringstrasse o cangote de Nietzsche com o frio chicote de Lou Salomé moveu Dom Quixote através dos moinhos percorreu ruas e rios e marés tangeu nuvens acima das montanhas. Sempre o mesmo vento, quente ou gelado, entrando e saindo pelos mesmos buracos, renascendo pelas entranhas, esse vento tão rente e tão remoto que como um pente acaricia teus cabelos enquanto por puro capricho maltrata meu olho com um maldito cisco.   
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  Francisco Otaviano de Almeida Rosa (Rio de Janeiro, RJ, 26.jun.1826 –  Rio de Janeiro, RJ, 28.jun.1889) Recordações Oh! se te amei! Toda a manhã da vida Gastei-a em sonhos que de ti falavam! Nas estrelas do céu via teu rosto, Ouvia-te nas brisas que passavam: Oh! se te amei! Do fundo de minh’alma Imenso, eterno amor te consagrei... Era um viver em cisma de futuro!     Mulher! oh! se te amei! Quando um sorriso os lábios te roçava, Meu Deus! que entusiasmo que sentia! Láurea coroa de virente rama, Inglório bardo, a fronte me cingia; À estrela d’alva, às nuvens do Ocidente, Em meiga voz teu nome confiei. Estrela e nuvens bem no seio o guardam;     Mulher! oh! se te amei! Oh! se te amei! As lágrimas vertidas, Alta noite por ti; atroz tortura Do desespero d’alma, e além, no tempo, Uma vida a sumir-se na loucura... Nem aragem, nem sol, nem céu, nem flores, Nem a sombra das glórias que sonhei......
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Ruy Guilherme Paratininga Barata (Santarém, 25.jun.1920 –  São Paulo, 23.abr.1990) Poema Sobre o piano – rosas entre as rosas o azul e o azul não era azul era vermelho. Tocavam Bach e era como luz que transitasse no mistério. Todos estavam silenciosos e no fulgor das pupilas envenenadas pelo medo havia uma estranha dor de morte prematura. Minha mãe chegou a mim e disse: fica meu avô me segurava do retrato, meus netos me acenavam do futuro. Porém eu estava sitiado entre a fuga e a tocaia. A nuvem carregou-me adormecido, varei a criação, transpus o limbo, quando acordei, meu pai, já era o céu.  
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Ribamar Bernardes (Joinville, SC, 25.jun) de profundos espasmos noturnos   “… às noites me esvaio em sacro fervor.” Novalis   teus olhos        derramados espaços       dissonantes extensões líricas cidades convulsas (  ilúcida       ilha    última     gozo     verbo    rrágico              êxtase     falo   crático    íntima   invasão vipernina   intensa expansão   lúbrica   )         :       teu     corpo  dissolvido        em  dissoluta  ausência  dispersão       ultra    uterina  latência   líquido  amorosa (  urbanas    carícias corrosivas    distúrbios orgânico    sintáticos  )         :   nosso eloquente ...