SOUSÂNDRADE,
nascido em 9 de julho de 1833 e batizado como Joaquim de Sousa Andrade em Guimarães,
cidade do interior do Maranhão, foi poeta e professor. Seu livro mais conhecido
e comentado, O Guesa foi escrito
entre 1858 e 1888, e ainda hoje é cheio de surpresas. Teria dito que o livro
seria lido muito tempo depois, e reconhecido sua decepção com a perspectiva.
“Ouvi dizer já por duas vezes que o ‘Guesa Errante’ será lido 50 anos depois;
entristeci – decepção de quem escreve 50 anos antes.”
Pertenceu à terceira geração do romantismo
brasileiro, no limite entre os poetas condoreiros e modernistas pela sua
ousadia estética, com elementos vanguardistas. Relegado a apêndices nos livros
de literatura do ensino médio, Sousândrade ainda hoje divide opiniões.
Enquadrado entre os “poetas menores” por uns, mesmo tendo reconhecida sua
originalidade, alçou voo entre os concretistas, principalmente a partir de Re/Visão de Sousândrade, feita por
Haroldo e Augusto de Campos.
Escreveu, ainda, Harpas Selvaens (1857). Formou-se em letras pela Sorbonne,em Paris,
onde também fez o curso de engenharia de minas. Mudou-se para os Estados Unidos
em 1870, onde colaborou com o jornal O
Novo, em Nova York, entre 1871 e 1879. De volta ao Brasil, foi presidente
da Intendência do Maranhão (1890) e chegou a candidatar-se à senador.
Morreu em 21 de abril de 1902, em São Luís,
capital do Maranhão. Além do livro dos irmãos Campos, em 2012 foi editado O guesa, organizado e atualizado por Luiza
Lobo, em coedição coma Academia Maranhense de Letras.
* * *
DO CANTO DÉCIMO
1873-188...
No
dia de anos, bons a lady nobre,
Recamados
drawingrooms[1]
deslumbrantes
Às
recepções, radiosa de brilhantes,
Deusa
o colo alvo e cândido descobre
A que
adornos desmaiam. Suntuosos,
Bufetes
e bouquet. Sorrindo a miss
No adorável
serviço de meiguice,
Que não
dos escanções silenciosos,
Linda
oferece na mãozinha branca,
Dizem
que beberagem para amor –
Porém
sorrindo of’rece, ingênua e franca,
O ponche
de champanha abrasador.
Entanto
às hops[2]
não sendo, das montanhas,
Sem dúvida
que este é o mais propício
Risonho
dia ao doce compromisso
Do coração,
que a filtro tal se assanha:
São callers[3]
os papás; nem os consente
Boa etiqueta
em casa; e o soberano
Cetro
tem-no a mulher – Quão docemente
Alvora
o dia que é primeiro do ano!
Gelada
a terra, o ar vivo, o sol brilhante,
Aos lagos,
que ondas foram sonorosas
De margens
d’ecos, o rapaz e as rosas,
Vêm ao
baile do gelo: delirante,
Envolta
em vestes de veludos quentes,
A menina,
nos pés, viveza e graça,
O aro
prendendo dos patins luzentes,
Letras
sobre o cristal girando traça.
A Bíblia
da família à noite é lida;
Aos sons
do piano os hinos entoados,
E a
paz e o chefe da nação querida
São na
prosperidade abençoados.
– Mas
no outro dia cedo a praça, o stock[4],
Sempre
acesas crateras do negócio,
O assassínio,
o audaz roubo, o divórcio,
Ao smart[5]
Yankee astuto, abre New York.
[1] Sala de recepção.
[2] Dança, inglês
coloquial.
[3] Pessoa que faz uma
curta visita formal.
[4] Stock Exchange – a Bolsa de Valores.
[5] Astuto.
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